As aventuras de um náufrago.
Por Leonardo Perin Vichi. Graduando – Letras: Português/ Alemão
O Antigo Egito, além de suas pirâmides, mistérios, maldições faraônicas e lendas, traz-nos um fantástico material literário, riquíssimo e empolgante, que influenciaram sobremaneira os povos da antigüidade, que por tabela nos influenciaram também. Obras como as 1001 Noites, livros bíblicos, lendas populares e conceitos filosóficos e religiosos trazem forte carga do pensamento egípcio e se eternizam ent
re nós. Essa história que apresento hoje, “As aventuras de um náufrago”, representa uma dessas possíveis obras originárias da literatura egípcia.
Nossa tradução da obra foi realizada diretamente de sua versão em hierático, através do fac-símile do papiro de Leningrado
As Aventuras de um Náufrago enquadra-se exatamente no panorama que apresentamos, do Médio Egito. Trazendo-nos um gênero de literatura fantástica altamente sofisticado. A começar pela técnica da narrativa em camadas, recurso característico desse tipo de literatura e muito encontrado nos contos das 1001 Noites. Uma análise mais profunda do texto leva-nos a crer que ele tenha sido feito a um público mais seleto e intelectualizado. E isso através de um detalhe bem peculiar. O Medunatjeru desse período resgata formas arcaizantes do idioma como forma de torná-lo mais elegante e tal detalhe faz com que se afaste da língua usada pelos vulgares.
O texto inicia-se com o diálogo entre marinheiros que retornam de uma viagem frustrada, e um desses deveria apresentar-se ao rei para a prestação de contas e temia pelo que poderia ocorrer à sua vida. Para acalmá-lo o outro conta sua aventura em uma ilha fantástica após um naufrágio em que, aportando em uma ilha, se depara com uma serpente mágica que lhe conta sua história e lhe remete são e salvo à sua terra.
Para não cansarmos o dileto leitor que nos cede a generosidade de sua atenção, termino com duas últimas considerações. Recomendamos ao leitor atenção ao que, na nossa modesta opinião, é o trecho mais belo de toda obra, quando sozinho por três dias na ilha o náufrago diz ter tido apenas seu coração por companheiro. Tal trecho, além de seu lirismo, remete também a diversos conceitos da filosofia, simbologia e misticismo egípcios, que não caberiam nestas páginas, mas que com certeza oferecerão ao leitor um belo exemplo da riqueza do pensamento egípcio. A segunda consideração é no tangente ao colofão, ou o encerramento do texto, espaço no qual o autor ou o copista se apresentam e mesmo ameaçam o leitor do papiro. Como por exemplo, nos papiros da obra “Os Ensinamentos de Amen-en-Op” o escriba anuncia: Todos aqueles que falarem mal desse papiro terão Toth (o deus da escrita) por adversário. Assim, deixo o dileto leitor com a modesta tradução dessa obra ímpar da literatura egípcia.
\
O sábio servo disse: “Deixe que teu coração fique satisfeito, ó meu senhor, pois que estamos de volta ao país; após termos estado muito tempo a bordo e remado tanto, a proa finalmente tocou a terra. Todos se alegraram e nos abraçaram um após o outro. Além do mais, nós voltamos em perfeita saúde e não falta sequer um de nossos homens, embora nós tenhamos estado nos confins da Núbia e passado através das terras da Etiópia, nós retornamos em paz para nossa terra --- Eis que estamos de volta a ela. Ouça-me, meu senhor, eu não exagero. Que te laves e que jorres a água sobre teus dedos; então vás e conte a lenda à Sua Majestade.Tens que falar sem gaguejar, pois a boca de um homem pode salvá-lo e suas palavras fazem com que o perdoem. Faze como quiseres, não desejo cansar-te”
O navegador então continuou, “Agora eu devo dizer-te o que aconteceu a mim, a mim próprio. Estava indo para as minas do Soberano e naveguei em um barco de 150 cúbitos de comprimento e quarenta cúbitos de largura, com 150 marinheiros dos melhores do Egito, que fosse observando o céu ou a terra seus corações eram mais fortes que leões. Podiam prever uma ventania antes de ela ocorrer e uma tempestade antes dela surgir.
Mas, quando nos aproximávamos da terra, o vento veio e ergueram-se ondas de mais de oito cúbitos. De minha parte, agarrei-me numa tora de madeira; mas aqueles que estavam no navio pereceram, sem que sobrasse um sequer. Uma onda lançou-me em uma ilha, após o que, eu fiquei três dias sozinho, tendo apenas meu coração por companheiro. Eu repousei à sombra de uma moita. Estiquei meus membros, tentando encontrar algo para minha boca. Lá encontrei figos e grãos, melões de vários tipos, peixes e pássaros. Nada lá faltava. E eu me satisfiz; e deixei no chão tudo aquilo que meus braços não puderam levar. Cavei uma cova, fiz fogo e lá queimei oferendas aos Deuses. ”
“De repente ouvi um ruído como de um trovão, que pensei ser uma onda do mar. As árvores se agitaram e a terra se moveu. Eu descobri minha face e vi que uma serpente se aproximava. Ela possuía trinta cúbitos de comprimento e sua barba tinha mais que dois cúbitos; seu corpo estava coberto de ouro e sua cor era a do verdadeiro lápis-lazúli. Ela enrolou-se ante mim. Então abriu sua boca, enquanto eu deitava sobre meu ventre diante dela, e disse a mim: “O que te trouxe aqui, o que te trouxe , pequenino, o que te trouxe aqui? Se não me responderes prontamente, farei que, quando tu te deres por ti, estejas reduzido a cinzas” Ao que eu respondi: “Falas-me e eu não compreendo, estou sem consciência de mim próprio ante de ti.”
Então ela me pôs em sua boca e carregou-me para sua morada, e repousou-me sem qualquer dano. Eu estava inteiro e sólido e nada fora tirado de mim. Assim, ela abriu sua boca contra mim, enquanto eu repousava sobre meu ventre ante ela, e ela disse: “ Que te trouxe aqui, o que te trouxe , pequenino, o que te trouxe aqui a esta ilha que está no mar e na qual as ondas quebram dos dois lados?”
Então respondi com os braços estendidos ante a ela, e eu disse: “Eu embarquei em direção às minas sob ordem de Sua Majestade, em um barco de 150 cúbitos de comprimento e de largura quarenta cúbitos. E nele havia 150 marinheiros dos melhores do Egito, que fosse observando o céu ou a terra seus corações eram mais fortes que leões. Podiam prever uma ventania antes de ela ocorrer e uma tempestade antes dela surgir. O coração de cada um excedia em prudência ao de seu companheiro e não se saberia dizer quem possuía o braço mais forte e eu não estava em desvantagem com nenhum outro. Uma tempestade veio sobre nós enquanto estávamos no mar. Duramente poderíamos alcançar tais ondas quando o vento soprava cada vez mais forte, e as ondas alcançaram mais de oito cúbitos. De minha parte, agarrei-me em uma tora de madeira, enquanto aqueles que estavam no barco pereceram sem que qualquer um fosse deixado comigo por três dias. Eis que agora estou ante a ti, pois eu fui trazido para essa ilha por força das ondas do mar.”
Então ela disse a mim: “Não temas, não temas, pequenino, e não entristeças tua face. Se tu vieste a mim, então foi Deus que permitiu que tu viesses. Pois foi ele que te trouxe até essa Ilha da Abundância, onde nada falta e que está repleta de todas as boas coisas. Veja então, tu passarás um mês após outro, até que completes quatro meses nesta Ilha. Após isso, um barco virá de tua terra e tu deverás partir com eles para teu país e tu deverás morrer em tua cidade.
Quão feliz é aquele que pode contar sua dita após passar pela miséria. Eu irei, contudo, contar a ti o que se deu nessa Ilha. Eu estava aqui com meus irmãos, entre os quais havia crianças, nós éramos 75 serpentes, crianças e adultos, sem falar de uma menininha que tive por filha através de uma prece. Então uma estrela de fogo desceu do céu e transformou-os em cinzas, tal ocorreu quando eu não estava presente, arderam no fogo sem que eu estivesse por perto. De tua parte, se tu és forte e se teu coração for paciente, tu irás apertar teus filhos contra teu peito e abraçar tua esposa. Tu deves retornar para tua casa que está cheia de boas coisas e tu deverás ver tua terra, onde tu habitarás no meio dos teus.
Então me curvei em obediência, deitei sobre meu ventre ante a ela e disse: Eis que tudo o que vi e o que me contaste deverei dizer em presença de meu Soberano, eu farei que tua grandeza seja conhecida por todos, e irei trazer-te óleos sagrados e perfumes hekenu e incenso dos templos onde todos os Deuses são adorados. Contarei tudo o que me foi feito e preces serão elevadas para ti na minha cidade perante todos os grandes de minha terra. Eu abaterei touros por ti em sacrifício e torcerei o pescoço dos pássaros para ti e trarei barcos com todos os tipos de tesouros do Egito, como só a um Deus que ampara os egípcios em terras estrangeiras é feito.
Então ela se riu de minha fala, o que lhe parecia fora da razão e disse-me: Tu não és rico em mirra, mas possuís bastante incenso. De minha parte, eu sou a Princesa da Terra de Punto e eu tenho todos esses perfumes. O perfume hekenu que pensaste em mandar é abundante nesta Ilha, pois é daqui que ele provém! Mas, de qualquer forma, ao deixares este lugar, nunca mais o verás novamente, pois ele afundará sob as ondas.
E eis que, quando o barco chegou, conforme ela mo dissera, ergui-me ao alto de uma árvore para ver aqueles que estavam nele. Então vim e disse a ela que haviam chegado, mas a serpente já sabia o que ocorrera. Assim ela me disse: “Adeus, Adeus, retorne a tua casa, pequenino, veja novamente os teus filhos e faça com que meu nome seja conhecido em tua cidade, estes são meus únicos pedidos a ti.”
Então me curvei novamente ante a ela e estendi meus braços, e ela deu-me de presente preciosos perfumes hekenu, de cássia, de madeiras doces, de láudano, de canela, de ciprestes e uma abundância de incensos, peças de marfim, babuínos e macacos, maquiagem para os olhos e toda espécie de coisas preciosas. Eu embarquei tudo e curvei-me em prece a Deus por ela. Então ela me disse: Eis que retornarás ao teu país em dois meses, e apertarás teus filhos em teu peito e poderás repousar em tua tumba.
Após isso, dirigi-me às vagas e ao barco e chamei os marinheiros que lá estavam. Então, ainda nas vagas, prestei adoração à Deusa daquela ilha e àqueles que lá habitavam.”
Volte seu olhar para mim, que estou aqui após tudo o que passei e vi. Ouça-me, que é proveitoso escutar. E ele disse a mim: “Não te esforces tanto, nobre amigo, quem daria água ao amanhecer ao ganso que será abatido na tarde.”
Colofão:
Está terminado esse papiro de seu início até seu final. Tal foi escrito no rolo pelo escriba de dedos ágeis Amon-amenaa, Vida, Saúde e Prosperidade (Ankh, Udjah, Seneb).
Postar um comentário